luís miguel nava / a saída

Havia no seu corpo uma saída.
Podia através dela ir até onde quisesse, de momento que a porta não ficasse a bater com um ruído que a maior parte das pessoas confundia com o bater do coração. Não consta que o sangue o perseguisse senão muito raramente e mesmo assim não para além da beira-mar.
Trazia há algum tempo na memória um espelho onde quem quer que se abeirasse dele podia contemplar-se. Pelo espelho era possível ver os poços através dos quais a pele desaparece, as ondas momentaneamente imóveis, as areias a assaltar-lhe o coração.


luís miguel nava
poesia completa (1979-1994)
rebentação
publicações dom quixote
2002

mthcthnn:

Pierre Debroux, I catch the waves

oppium:

"a arte existe porque a vida não basta" ♥

Olha, ainda há flores.

Mas quem se atreve

a cantar as flores do verde pino

no madrigal desta manhã de pesadelos?

 

E tu, papoila, minha bandeira breve,

quando voltarás ao teu destino

de enfeitar cabelos?

 

- José Gomes Ferreira

nefelibata-dreamer:

"abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo”

Al Berto, ‘O Medo’

ohyns:

i found this in another school cubicle. the next day it had been painted over 

"the ones you love become ghosts inside you,

and like this you keep them alive”

supruntu:

Yekaterina Tirik

astonishing-moments:

Helmut Findeiß

paul éluard / ela está de pé nas minhas pálpebras

Ela está de pé nas minhas pálpebras
com os dedos nos meus entrelaçados.
Ela cabe toda em minhas mãos,
ela tem a cor dos meus olhos
e desaparece na minha sombra
como uma pedra sobre o céu.
Tem sempre os olhos abertos
e não me deixa dormir.
Os sonhos dela à luz do dia
fazem os sóis evaporar-se,
fazem-me rir, chorar e rir,
falar sem ter nada a dizer.
paul éluard
algumas palavras (antologia)
tradução antónio ramos rosa e luiza neto jorge
dom quixote
1977

tinha um cravo no meu balcão;
veio um rapaz e pediu-mo:
- mãe, dou-lho ou não?

sentada, bordava um lenço de mão; 
veio um rapaz e pediu-mo:
- mãe, dou-lho ou não?

dei um cravo e dei um lenço,
só não dei o coração:
mas se o rapaz mo pedir:
- mãe, dou-lho ou não?


- eugénio de andrade